Gratidão?

Na primeira semana adoeci. Comprei remédios para que os sintomas fossem embora e eu me curasse.
Passei o resto dos dias me dizendo que era o clima seco, que logo passaria.

Na segunda semana me senti exausta. Exausta de fazer o mesmo percurso todos os dias, ir aos mesmos lugares, ver as mesmas pessoas. Exausta de me olhar no espelho e ver a tristeza emanando do meu corpo.

Na terceira semana eu deixei de fazer pequenas coisas. Me irritava facilmente, só queria dormir, queria um pouco de paz.
Me sentindo angustiada por não ter pra onde correr, onde fugir e escapar de mim mesma. Escapar da minha mente.

Na quarta semana eu desisti das coisas que me faziam bem. Desisti das minhas músicas, dos meus livros, desisti de comer.
Me perguntava onde tinha errado, quais eram os tantos defeitos que eu deveria ter para ser daquele jeito. Me perguntava por que Deus permitira eu nascer pra me ver sofrer.

Ao completar um mês me sentia egoísta e ingrata. Fazia tudo parecer pouco, insignificante, triste. Me convenci de que ninguém nunca de fato gostou de mim, era dó. Me convenci de ser ingrata por talvez não dar tanto valor às pequenas coisas, por não acordar e agradecer, por não ter uma perspectiva, por não gostar de viver.

Na quinta semana eu bebi duas garrafas de vinho. Eu estava sozinha e triste, queria matar o tempo.
Nesse mesmo dia eu vi remédios, cartelas cheias deles. Quase sucumbi a ideia de que finalmente tudo o que eu sentia acabaria. Mas eu não o fiz, e não sei se devo agradecer ou me arrepender disso.

desejei ser diferente. sempre o fiz

Eu não me sinto viva o suficiente como gostaria que estivesse. Desejo que minha vida fosse como um filme dramaticamente hilário com uma trilha sonora incrível, para que quando eu olhasse sentisse que algo em mim estaria se tornando completo, estaria finalmente em harmonia.



Sabe, seja lá quem você for, eu desejei tanto ser o completo oposto do que sou para que finalmente me sentisse aceita perto das pessoas que amo ou que um dia cheguei a me interessar. Consegue ver quão estúpido isso é?



Por anos incontáveis sonhei em viver um amor de verão. Desejei viver minha adolescência como geralmente se deve, não como uma idiota que não consegue sair de casa, mais responsável que o próprio pai e mais sem graça que um palhaço em decadência.



Eu realmente desejei que fosse tudo diferente. Diferente o bastante para que eu esquecesse de quem eu era. Diferente o suficiente para eu pensar estar vivendo uma mentira.

Claustrofobia

Pouca coisa me agrada ao ponto de ficar inerte naquele momento.
Gosto de ler, mas as palavras não parecem me sugar para outro mundo como antigamente. Gosto de ouvir música, mas as melodias não parecem mais surtir efeito calmante como antigamente.

São poucas as coisas que gosto, e agora, parece que nenhuma delas me tira desse mundo triste que vivo. Mundo esse que eu mesma criei e não consigo sair.

Toda vez que leio um livro fico triste, toda vez que escuto música fico triste, toda vez que saio de casa fico triste, toda vez que vou para o meu quarto fico triste, toda vez que estou conversando fico triste. Não sei mais o que fazer com tanta tristeza.

Recorri à psicoterapia, essa é segunda vez, não sei se o problema sou eu por talvez não tentar, ou se preciso de medicação, ou se já posso me denominar um caso perdido.

É tão agoniante sentir essa tristeza durante anos, depois se tornar maior e você não conseguir com que nada torne aquele sentimento bom durável.

Estou cansada, tão cansada, de dizer a mim mesma que sim, eu tenho um bom futuro, que sou boa e sou suficiente. Estou cansada de enganar a mim mesma dessa forma. Tornei-me tão desiludida com a vida que agora não faço mais questão de nada.

Estão sempre me dizendo para deixar de fazer isso, diminuir aquilo… Constantemente me sinto presa em um lugar pequeno e distante onde ninguém consegue me ouvir, sinto como se fosse morrer de claustrofobia, por estar presa em mim mesma.

Não me sinto eu mesma, me sinto um tipo de projeto idealizado por outras pessoas, essas que me deixaram feridas que até hoje não se curaram. Enfrento diariamente uma batalha de dor e cura. É difícil manter esse processo de autocuidado e aprender a lidar com pessoas que precisam disso também.

Estou esgotada de tanto tentar caber em um molde inexistente, por que se os outros desistem e fazem o que querem tudo bem, agora eu tentar a sorte não posso. Vivo pisando em ovos com medo de dizer algo e sofrer represálias sempre foi assim, eu acho.