Na primeira semana adoeci. Comprei remédios para que os sintomas fossem embora e eu me curasse.
Passei o resto dos dias me dizendo que era o clima seco, que logo passaria.
Na segunda semana me senti exausta. Exausta de fazer o mesmo percurso todos os dias, ir aos mesmos lugares, ver as mesmas pessoas. Exausta de me olhar no espelho e ver a tristeza emanando do meu corpo.
Na terceira semana eu deixei de fazer pequenas coisas. Me irritava facilmente, só queria dormir, queria um pouco de paz.
Me sentindo angustiada por não ter pra onde correr, onde fugir e escapar de mim mesma. Escapar da minha mente.
Na quarta semana eu desisti das coisas que me faziam bem. Desisti das minhas músicas, dos meus livros, desisti de comer.
Me perguntava onde tinha errado, quais eram os tantos defeitos que eu deveria ter para ser daquele jeito. Me perguntava por que Deus permitira eu nascer pra me ver sofrer.
Ao completar um mês me sentia egoísta e ingrata. Fazia tudo parecer pouco, insignificante, triste. Me convenci de que ninguém nunca de fato gostou de mim, era dó. Me convenci de ser ingrata por talvez não dar tanto valor às pequenas coisas, por não acordar e agradecer, por não ter uma perspectiva, por não gostar de viver.
Na quinta semana eu bebi duas garrafas de vinho. Eu estava sozinha e triste, queria matar o tempo.
Nesse mesmo dia eu vi remédios, cartelas cheias deles. Quase sucumbi a ideia de que finalmente tudo o que eu sentia acabaria. Mas eu não o fiz, e não sei se devo agradecer ou me arrepender disso.